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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Um conto: O pedido



O pedido

A pálida luz da lua, enaltecida pelo espesso véu negro da noite, tecia seus braços luminosos tocando agora a superfície de um mundo ainda jovem, e como tal, completamente tomado pelo delírio de ser, vagando, perdido, por entre as próprias fantasias.



O longo e silencioso suspiro das arvores fora quebrado conforme pesadas botas de couro deformavam o solo logo abaixo de si. Uma respiração ofegante roubava-lhe a vez da fala, ocupando todo o ar que dançava friamente ao seu redor. A tensão, denunciada pelas gotas de suor que escorriam lentamente sob a pele, crescia a cada passo dado em direção ao destino traçado entre as paginas amareladas de um antigo exemplar, envolto em uma grossa camada de pano, repousado sob o braço. Embora antigo e maltratado pelo tempo, trazia ainda consigo a beleza que tivera no dia em que fora escrito. Sua capa ornamentada em um couro batido já desgastada e sem brilho, não deixava a restar duvidas de que tal objeto fora moldado por sobre a mais fina matéria, e perdido em um tempo, que transcendente às lembranças, havia deixado de existir.
Os braços e pernas feridos pelo trajeto forçado mata adentro, perpetuavam sua interminável luta, abrindo caminho por entre os galhos secos e pontudos de uma mata cada vez mais fechada e densa. Os calçados já completamente subjugados pela lama, sentiam dificuldade de manter-se num curso constante, resultantes à dor que agora percorriam os membros inferiores. E em meio ao silencio berrante da noite, a língua ressecada esfolava o céu da boca, repetindo para si mesma que agora faltava pouco.
Não demorou muito mais tempo para que avistasse, por entre os troncos negros, o reflexo proveniente das águas. Finalmente havia chegado ao seu destino. Exausto e ofegante, aproximou-se do lago, caindo sobre os joelhos e permitindo que a fria terra úmida se moldasse ao redor dos dedos de sua mão.
Após recuperar o fôlego, roubado pela árdua caminhada, repousou o velho livro bem a sua frente. Correu os dedos por paginas finas, porém muito pesadas, buscando aquela que era única entre tantas outras iguais. Suavemente fechou-se no escuro de sua mente, e tão solene quanto o gemido das arvores ao seu redor, começou a entoar uma prece cada vez mais alto.
  “ Aquela que habita o coração negro de todos que são um ; Mãe da sombra e Rainha das trevas; Diante do pobre servo aparece-te; Do sangue dele ergue tua força; De sua alma eleva teu espirito; Conceda a este que lhe serve um suspiro de pedido.”
Abriu os olhos e correu sua visão pelo cenário que o abraçava, tudo permanecia como antes, nem mesmo a Dama da noite mostrava, em seu percurso habitual, que o tempo havia se passado. Sentiu-se decepcionado, porém dignou-se a tentar mais uma vez, afinal havia chegado até ali e alguma parte do todo merecia, por excelência de causa, ser real. Dessa vez curvou-se a ponto de sentir a terra fria beijar sua testa, entoando novamente sua prece, erguendo a voz o mais alto e encorpada quanto fosse possível para alguém entregue ao estado em que se encontrava. O vento cortava friamente as árvores que gargalhavam com o balançar de suas folhas. Se riam de prazer ou de histeria, aquela altura o pobre homem não sabia dizer.
O eco das palavras finais dissipou-se do ar, fugindo-lhe ao alcance dos ouvidos. Lentamente, e já sem esperança, levantou o corpo, e assim também  sucedeu-se seus olhos. O susto o fez cambalear pra trás, caindo sobre a lama escura formada pelo abraço gélido entre a água do lago e a terra que lhe servia de cálice. Ali, caído e paralisado pelo medo, emitia um forte grito de pavor, audível apenas ao ouvido daquelas que outrora foram chamadas de almas.
  “ Quem és?” Disse uma voz antiga arrastada, oriunda de um vento esbranquiçado. “ O que queres vindo até aqui?”
Ainda tremulo, o homem avistou o livro que agora dormia tranquilamente nos braços daquela que lhe falava.
  “ E-eu..” Tentou responder, mas as palavras pareciam agarra-se a sua garganta como se temessem ser pronunciadas.
Longos cabelos brancos ondulavam junto à vestes de mesma cor, dissolvidos num caminhar elegante, dado para fora da água escura.
  “ Quem és, e o que queres aqui?” Indagou a voz num tom mais forte e imponente.
  “ Um.. um lenhador, apenas isso...” Conseguiu dizer, sem olha-la nos olhos, se é que a coisa também os tinham. “ Vim da Velha cidade.”
  “ Hmm. Então ela ainda existe?”, disse a entidade como se lembrasse de algo há muito esquecido. “ Vocês são como uma praga que se alimenta do próprio veneno. Tão persistentes quanto inconvenientes... Porém, não viverão para sempre.”
Continuou a aproximar-se devagar. Suas vestes se arrastavam sobre a terra escura, muito embora parecessem tão limpas e claras quanto às tardes ensolaradas de verão.
  “ Onde encontrou esse livro?” Questionou de forma pesada e acusativa. “ Não deveria homem nenhum tê-lo!”
  “ En- encontrei-o. Não o roubei, eu lhe juro... eu juro.” Respondeu, lutando para olha-la diretamente. “ Tentei lê-lo, mas não o compreendi. Apenas a parte que me trouxe até aqui.”
O vulto branco, que parecia tremular entre diferentes estados de matéria, ora solido como rocha, ora intocável como uma miragem, caminhava ao redor do lenhador ainda jogado no chão. Seus olhos acinzentados contemplavam o vazio, como se estes se perdessem perante o vislumbre de um mundo invisível para quase toda a existência.
“ O que queres de mim?”, perguntou ao parar frente as costas do homem.
Após um silêncio que permitiu que o longínquo murmúrio do bosque fosse por eles ouvido, o homem ergueu o rosto a contemplar o céu que cobria-lhes com seu manto bordado em estrelas.
“ Eu quero viver para sempre!” Foram as palavras que saltaram graciosamente de seus lábios.
“ Pois que assim seja.” Disse a antiga figura branca enquanto caminhava em direção ao lago, ajoelhando-se a sua margem.
“ O.. O livro mencionava um preço...” Disse o homem em voz baixa.
“ Não te preocupes quanto a isso, criança. Não faço de tudo por aquilo que recebo, quanto mais a quem me veio com tão forte e honesto desejo.” Respondeu solenemente.
Enquanto caminhava de volta ao ainda caído lenhador, o reflexo vindouro das águas parou de sorrir em sua superfície, que agora se mostrava completamente negra e opaca. O ar tornou-se surdo e pesado, decaindo na escuridão a cada passo dado pela entidade, que permanecia tão clara e luminosa quanto o dia.
“ A lua escondeu-se sob nuvens... Tão distante, mas ainda assim tão sábia. Não achas?” Murmurou ao se abaixar diante do homem que tremia sem saber o que o aguardava. Aproximou os finos dedos cobertos pela espessa lama do lago em direção ao rosto assustado.
“ Abra-te os olhos!”
Tão logo o lenhador descolou as pálpebras tremulas, tudo o que outrora conheceu tornou-se escuridão e vazio.

                                                     *****

Grossos dedos enrijecidos pelas constantes esfoliações e cascas de feridas, arranhavam a superfície rugosa de algo que um dia aprendera a chamar de árvore. Palavra está que vagava perdida de significado em sua mente, tal qual todas as outras que ainda mantinham-se, estranhamente, agarradas à sonhos muito distantes.
Enquanto arrastava-se sobre a terra seca de um mundo esquecido, tateava cegamente o caminho a sua frente, movido por um desejo que gemia, retorcia-se e gritava, envenenando sua alma com o fervor da agonia. A fome não o permitia descansar, envolvendo-o num ciclo eterno que jamais chegaria ao fim. O alimento comum, por assim dizer, não mais o saciava, e o desespero irracional em agarrar-se insandecidamente à própria vida, era única coisa, que em meio a tanta confusão, norteava sua mente.
O mundo escuro que o cercava, de súbito mudou de repente. O ar opressor ganhou espaço, circulando e brincando ao seu redor, trazendo consigo um doce e sorridente aroma que adentrou suas narinas, preenchendo por completo os pulmões. Dentre todos os aromas que habituara-se a sentir, aquele domou severamente sua atenção. Era de fato diferente de tudo aquilo que um dia farejou. Criatura alguma que já cruzara seu caminho possuía um cheiro tão forte e atrativo quando aquele.
Levantou a cabeça buscando, através do faro, encontrar a trilha que o levaria até a fonte do cheiro. Sua boca já deixava escorrer por entre os dentes o gosto, trajado pelo cheiro, de sua futura presa. Esgueirou-se lentamente pela vegetação muito mais leve e espaçada do que antes, como aprendera a fazer de forma tão exemplar em suas caçadas. Sorrateiramente aproximou-se de uma estrutura sólida, feita do mesmo material que sustentava o bosque no qual vivia. Ergueu as narinas tentando encontrar o faro novamente, e seguiu-o, circundando a estrutura.
Tateou aquilo que parecia uma fissura, uma falha, um caminho que o levaria diretamente à satisfação. Adentrou velozmente pela abertura, na certeza que sua presa de forma alguma o aguardava. Tão logo avançou exibindo unhas e dentes em um grito feroz, algo veio repentinamente ao seu encontro. Urrando para defender o filhote, o animal pôs-se o mais alto que pôde afim de fazer recuar aquele que atacava. O choque entre os corpos fez o ar vibrar, e o chão magoar-se ao recebê-los num abraço doloroso.
Rolando um sobre o outro, dançavam uma melodia agonizante, compassada por socos, mordidas e arranhões. O desespero pela vitória, embora motivados por questões diferentes, igualava-os como sopros dados a favor do vento, permitindo que apenas um levantaria ao final de tudo.
Quando o suor da exaustão já banhava sua pele, o predador, num esforço descomunal, ergueu-se sobre o corpo de sua presa, cravando os dentes entorno do pescoço quente e macio. Os gritos de euforia e pavor massageavam seus ouvidos, enchendo-lhes de satisfação e calmaria. Os dedos, tal como garras, penetraram o abdômen da criatura, que já se entregava aos últimos suspiros de sua vida. O calor do sangue banhava sua alma, enchendo-a de paz e alivio, e a macies da carne mastigada em sua boca, saciava a infindável sede de seu corpo como nunca antes havia conseguido.
Satisfeito com sua caçada, e ainda coberto pelo fluido de vida que acabara de roubar, voltou novamente os sentidos ao ar que o cercava, ouvindo um som distante, mas ainda assim muito perto. Movendo-se como uma serpente, esgueirou-se pelo mundo negro, esbarrando e deparando-se com objetos que não compreendia, guiado por soluços abafados que em algum por alí lugar se escondia.
Tateou e cheirou um amontoado de objetos macios, diferentes de qualquer coisa que tenha encontrado no mundo do qual viera. O cheiro, agradável e perfumado, escondia outro muito mais doce em suas entranhas. Cavou e fuçou por entre os tecidos, lançando-os para todas as direções, como um faminto animal a revirar o lixo. Não demorou muito para encontrar o que com tanto fervor procurava. Agarrou com as mãos rubras, uma pequena poção de vida, que assustada, soltou um berro estridente e ensurdecedor.
Por um rápido suspiro, dentro da mente daquele que um dia fora um simples lenhador, e como homem que era, moldado pelo medo, o som, que agora rasgava-lhe os ouvidos, foi compreendido como um choro, o choro de uma criança.
De forma lenta e graciosa correu seus dedos sobre a pele lisa que berrava em seus braços, aproximou-a do rosto, sentido o calor transpassar e beijar-lhe a pele seca e sem vida da face. Tocou os lábios grossos e ressecados sobre a carne macia, permitindo que o cheiro adentra-se lentamente por suas narinas, enquanto perdia-se doce sabor de carne viva.



Todas as noites a lua abraça carinhosamente um mundo corrompido, envolto pelas trevas e esquecido pela luz. Dentre os montes e florestas, cavernas e cidades, rios e oceanos, estão aqueles, para quem a lenda do homem que tornou-se demônio ao devorar a própria família, viverá para todo o sempre.


                                                                                                   - Caio Karoba


domingo, 12 de janeiro de 2014

Um conto: O interrogatório.


O interrogatório

Dentre todos os mistérios que vagam a esmo pelo cosmo, talvez a Terra seja o mais obscuro de todos. Abandonada a própria sorte próxima a grande figura brilhante, outrora visto como o próprio Deus, ela abriga criaturas tão pequenas e frágeis, dotadas de quase nenhuma consciência. Tais criaturas não apenas possuem a esplendida capacidade de conjurar sonhos, mas de tornar real seus pesadelos.
  “Acho que ela desmaiou, senhor.”, disse um jovem rapaz com voz e cabeça baixa.
  “Acorde-a!”, Respondeu-lhe com firmeza  e autoridade.
O Jovem caminhou até um tanque de madeira, com o auxilio do balde surrado e desgastado pelo constante uso, ele pegou uma quantidade generosa da água escura e esverdeada pelos fungos que nela germinavam.
  “Ande com isso rapaz, não percamos mais tempo!”, berrou e o olhou-o com um tom de reprovação.
Com os braços trêmulos o jovem derramou por completo o conteúdo do balde sobre a cabeça da moça. Os longos cabelos negros que lhe cobriam o rosto, agora jaziam completamente encharcados e colados junto à pele suja de sua face.
  “Novamente!”, ordenou o homem sem desviar o olhar da jovem por um só segundo.
Desta vez, como quem acorda do sonho da morte, a moça ergueu a cabeça desesperada a procura de ar. O brusco movimento voltou a lhe ferir seus braços calejados e presos, o cheiro do mofo e madeira apodrecida a Fez recordar de onde estava.
  “Vejo que finalmente acordou, senhorita. Com o que sonhava? Vamos, conte pra nós.”
Por entre os fios de cabelos molhados, ela o observou com a respiração ofegante e os olhos a pesar em lagrimas.
  “Ao que parece meu rapaz ”, disse o homem enquanto remexia alguns instrumentos no balcão. “ vamos continuar aqui por mais algum tempo.”
O homem se dirigiu até a pequena lareira escavada na parede fria de pedra, sobre ela, velhas ferramentas repousavam em um sono profundo, aguardando o dia em que voltariam a ser reutilizadas. Com os dedos magros retirou delicadamente uma longa alavanca de ferro do seu local de descanso, logo em seguida mergulhou uma de suas extremidades sob as brilhantes brasas banhadas pelas chamas alaranjadas.
Voltou-se na direção do balcão, onde apanhou um alicate. Diferente dos instrumentos expostos na parede, este se mostrava muito bem cuidado e conservado. “ Queira pende-la as mãos com mais firmeza, sim?”, disse ao olhar o jovem rapaz que não parecia nem um pouco confortável com aquela situação.
Presa à cadeira, a jovem permanecia incorrupta. Os olhos escuros pesavam-lhe no rosto, projetando toda a sua face para baixo. Por entre os lábios ressecados esboçou abafados gemidos enquanto as cordas apertavam ainda mais os braços cobertos de ferimentos e hematomas. 
  “Por que não evita mais sofrimento e confessa por fim o que fez? ” Dirigiu-lhe o homem enquanto se aproximava a pesados passos.
  “Olhe pra mim quando falo com você!”, rugiu olhando-a de cima.
Lentamente ela levantou a cabeça tremula na direção de seu inquisidor.
  “Você nega que nos últimos seis meses trabalhou na propriedade dos Vincent, e que lá cometeu tamanha barbaridade?” Perguntou severamente.
Motivado pela ausência de resposta, homem deu um passo a frente agarrando a unha do opositor esquerdo da prisioneira. “ Você nega ter servido na residência dos Vincent nos últimos 6 meses?” indagou tão lentamente quanto forçava a ferramenta .
Tremendo de dor, a jovem engolia em seco os gemidos quase sempre por mal sucedida. Com um ultimo esforço mais forte a unha fora arrancada do dedo pálido. O sangue quente viajou pelo ar até por fim derramar-se sobre o vestido, que embora sujo e encardido, trazia indícios que no passado fora tão belo quanto sua dona um dia foi.
Dotado de mãos firmes e expressão inabalável, o interrogador já estava por arrancar a quarta unha quando finalmente a mulher gritou desesperada. “ Sim! Eu trabalhei! Eu trabalhei...” e sucumbiu aos suspiros pesados de quem realizou um grande esforço.
  “Muito bem, muito bem. Vejo que estamos no mesmo barco agora.” Disse o com um certo prazer em sua voz. “ Agora fale sobre seu trabalho. O que fazia na residência?” e se virou de volta ao balcão atrás de si.
  “Eu era uma criada, senhor. Apenas isso.”, respondeu a jovem em um tom quase inaudível.
  “Continue!”
  “Nada a mais que isso. Eu limpava, cozinhava, e as vezes cuidava das crianças...”
  “Você não esta sendo sincera minha jovem. Sei que fazia tudo isso, mas sei que também fez algo a mais. Algo proibido talvez?” e se virou deixando a mostra um pesado martelo balançar entre seus dedos.
  “Eu juro senhor, pelo deus cristo e sua mãe que jamais roubei nada.”  Disse em voz falha já por imaginar o  martírio que a aguardava. “ Eu juro...”
  “Eu acredito em suas palavras, mas sabe que não é por isso que estamos aqui.”
Em um movimento rápido e surdo, o martelo desceu impiedosamente sobre a mão direita da prisioneira. Sua cabeça sacudiu violentamente pra todos os lados, movida numa ferocidade capaz de arranca-la fora do corpo. O grito desesperado e estridente, nem de longe fez jus a tamanha dor que lhe afligia. Tão logo o pesado objeto ergueu-se, a pálida mão tornou-se tão escura e inchada quanto a carne podre de um animal morto há dias
  “Por que não falamos agora sobre seus hábitos noturnos? Outras criadas alegam que você as deixava quase todas as noites e que seu destino permanecia um mistério. Aonde esteve todas estas noites?” disse enquanto caminhava lentamente ao redor da acusada.
  “Jamais sai durante a no-noite. Nunca, nun.. nunca.” Respondeu por entre os cruéis afagos da dor.
  “Mentira!”, retrucou levantando-lhe o queixo com o martelo. “ Aonde esteve todas aquelas noites?”
  “Eu nunc...”, foi capaz de dizer antes de ser interrompida pelo pesado abraço desferido contra seu rosto.
  “Eu pergunte aonde você foi!” vociferou contra a face ligeiramente deformada pela fratura do osso e comprimida pelo inchaço que já se formava.
De cabeça baixa, as únicas palavras que conseguia lembrar chegavam aos lábios umedecidas pelo sangue ainda quente que agora deslizava ao longo do pescoço e seios.
  “Flo-floresta... Eu... ” Falou quase desfalecida.
  “O que fazia na floresta no meio da noite, creio que conhece o perigo de andar por aí sozinha no escuro, não? ” Perguntou o homem já um tanto satisfeito com o progresso.
  “Ervas, eu procurava por ervas.”
  “Para qual finalidade? ”
  “Remédios, eu-eu fazia remédio com elas.”
O homem caminhou com um ar intrigante pela sala, e por fim perguntou:
  “Como e para quem?”
  “O meu filho senhor, ele nasceu muito doente... Para que não fosse sacrificado por invalidez eu o escondi na mata e lá cuido dele.”
  “E onde aprendeu a usar o poder das ervas ao seu bel-prazer?” Perguntou um tanto curioso.
  “Um, um livro...” Disse a jovem após alguns instantes de silêncio.
O homem soltou uma gargalhada, incitando que outros presentes também o acompanhassem.
  “Um livro?”, riu novamente. “O que quer uma criada com um livro? Vai dizer agora que aprendeu a ler com as plantas e animais?”
O som das vozes e risadas atravessavam como eco os ouvidos da jovem, a forte pressão do inchaço no rosto a impedia de abrir totalmente os olhos. Sua respiração tornava-se cada vez mais fraca e espaçada mergulhando-a novamente na escuridão de sua mente.
                           
                                                     ***

  “Acorde-a!”
Mais uma vez, completamente suja e encharcada, ela estava de volta ao interrogatório. Olhou com dificuldade em volta, tudo parecia como antes, exceto ela mesma. Sobre sua cabeça, um tipo de capacete composto por hastes de ferro repousava suavemente.
  “Rapaz, faça o favor.”, disse o homem ao estender a mão na direção do utensílio.
Como um cachorro treinado, o jovem se moveu rapidamente para trás da prisioneira, e tão logo a girar a pequena alavanca. Lentamente as hastes começaram a se mover pressionando um aro muito bem encaixado na cabeça da jovem.
Sentindo o metal frio apertar cada vez mais seus pensamentos, a mulher sacudiu-se em desespero.
  “Ahhh, não. Eu já falei tudo, por favor não!”
  “Sabemos que sim, mas ainda nos falta um pouco mais.” Falou tranquilamente. “ Aperte!”
A jovem rugiu de dor, revirando os olhos e retorcendo os dedos que ainda se moviam, ela gritava, pedia e jurava para que aquele sofrimento acabasse.
  “Já chega!”
Tão lentamente quanto apertaram, as hastes agora afrouxavam-se ao redor do crânio. Na testa da jovem era possível ver claramente a depressão escurecida pelo sangue preso que assinava em nome da tal brutalidade.
  “Os homens que trabalham na fazenda alegam que muitos animais desapareceram ou morreram de forma misteriosa desde que passou a trabalhar na residência. Está ciente disso?”
  “Sim senhor, todos souberam destes eventos. O senhor Milton acredita ter sido obra de algum animal.” Respondeu com a respiração pesada.
  “Ele chegou a comentar que tipo de animal poderia ser?”
  “Não, nunca soube dizer.”
  “Pois eu digo que não foi nenhum animal.” Disse o homem postando-se bem diante da jovem.
Ela levantou os olhos bem de encontro aos deles, durante alguns instantes o absoluto silencio tornou-se ensurdecedor.
  “ Foi você!”
Os olhos da judiada mulher se abriram num repentino espanto mediante a acusação que lhe abatera tão forte o peito.
  “Desde que essa desgraçada entre nós se fez presente,” Levantou a voz para que todos no recinto o ouvissem claramente. “ Não só os Vincent, mas também outros proprietários notaram eventos estranhos. Desde a morte de animais até uma seca repentina de plantações. Poços de água podre e uma peste maldita assolando quem quer que ande sobre a terra!”
Murmúrios em concordância tomaram o ar a sua volta, satisfeito com a aprovação ele continuou.
  “Todas as calamidades tiveram inicio quando esta desconhecida chegou à cidade, pelo que soube ninguém a conhecia, nem mesmo já  se ouviu falar de sua família. Além disso ela alegou perante vossos olhos que possui um filho mesmo não sendo casada. Com todo respeitos aos senhores, mas esta não passa de uma fornicadora condenada ao inferno, e por onde quer que passe arrastará consigo a desgraça!”
Ele caminhou ligeiramente de volta a lareira de onde retirou a longa alavanca, esta agora gozava de uma extremidade tão brilhante e quente quanto o próprio fogo do inferno. Lentamente aproximou-a do olho direito da mulher, que a essa altura já havia chorado rios inteiros de água salgada.
  “Diga quem é você e de onde veio. Diga!”, gritou ao aproximar ainda mais o ferro em brasa.
O medo não a permitiu falar uma só palavra até que a luz beijasse seu olho. O grito estridente fez tremer as paredes e ensurdeceu os ouvidos de todas as almas que em seu plano carnal se faziam presentes.
O súbito barulho entoado pelas inúmeras vozes berrando e gritando ao mesmo tempo, foi cessado imediatamente com uma forte pancada na porta. Por ela entrou um homem de baixa estatura e rosto assustado, sua roupa suja e surrada indicava que havia andando por terreno difícil e coberto por vegetação. Há passos lagos e um pouco ofegante aproximou-se da autoridade vigente.
  “Vasculhamos a floresta, senhor.” Disse ao retirar o chapéu em respeito e pousa-lo sobre o braço.
  “E o que encontraram?”, Perguntou o homem demonstrando muito interesse.
  “Uma criança disforme. As mulheres mal aguentam olhar em sua direção, muito menos diretamente para sua face. Gritam e amaldiçoam-na como o filho do demônio.”
A jovem continuava a se mover inquieta pela dor que a assombrava, forçando os braços amarrados na esperança de conseguir solta-los.
  “Acharam mais alguma coisa?”
  “Um dos volumes proibidos do Alh’ha  Debuh.”
O homem fechou os olhos com muito pesar, suas sobrancelhas brancas pareciam querer se tocar enquanto pesadas gotas de suor escorriam pela sua rala barba. Decidido caminhou de volta até a moça, que relutava para se livrar das amarras. Curvou-se lentamente até ficar cara à cara com aquele rosto triste, e agora desfigurado.
  “Eu sei quem você é...”, disse olhando na escuridão de seu único  olho ainda aberto . “ Bruxa!”
Vozes de espanto e acusação ecoaram por entre as frias paredes de pedra. Dois homens altos trajando roupas de guarda aproximaram-se pesadamente da mulher, que agora sacudia-se violentamente em desespero, e imóveis aguardaram ordens.
  “Queimem-na!”, Falou por fim num tom seco.
Os soltados desamarraram a condenada e só com muita brutalidade a mantiveram sob controle.
  “Ahhhh, Não! Por tudo que há de mais sagrado, senhor! Eu não sou bruxa, eu não sou!”, gritava e rugia desesperadamente a ponto de romper os limites de sua voz.
Enquanto era arrastada pra fora alguns dos presentes na sala se benziam, outros lhe amaldiçoavam com fortes agressões na cabeça e estômago, ou apenas se limitavam a cuspir-lhe a face.
  “Esta já é a terceira condenada esta semana, padre.” Disse o jovem rapaz ao se aproximar do cansado inquisidor. “ Acha que encontraremos mais alguma?”
Ele calmamente retirou um lenço do bolso e enxugou o suor do rosto, olhou em direção ao jovem lamentando que ele tivera sido obrigado a presenciar o tamanho horror daquela noite.
  “Eu começo a pensar, meu bom rapaz, que bruxas não existem.”

                                                                                - Caio Karoba

















sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O lobo


   As chamas tremeluziam em fagulhas a cada movimento provocado na lenha. Com um pequeno graveto o homem revirava e remexia os pedaços de madeira depositados na singela lareira. O calor do fogo abraçava carinhosamente seu rosto derretendo os pequenos flocos de neve presos na sua espessa barba branca.
Aquele inverno tivera sido rigoroso, talvez o pior que se tenha tido noticia nos últimos 50 anos. Cidades jaziam paradas e desoladas, atoladas sob palmos e mais palmos de neve. Algumas já se encontravam completamente vazias, seus únicos habitantes eram agora aqueles que haviam sido reclamados pela peste ou pela simples falta de alimento. Entre aqueles que permaneceram em  suas casas, restava apenas o medo e a esperança  de que um dia os tempos voltariam a melhorar, e o sol voltaria a sorrir para aqueles condenados. 
Da cabana, o velho podia ver a estrada, esta que outrora fora transitada por inúmeros carroças de mercadores trazendo de longe produtos e atrações, agora se encontrava triste, vazia e coberta de neve. O vento soprava por entre as arvores frias assoviando em cada fresta ou janela que encontrasse em seu caminho. A floresta nunca pareceu tão escura e silenciosa como tivera sido nos últimos dias, e ao que parecia qualquer que fosse o animal que vivia por ali já havia perecido ou debandado a muito tempo. 
O velho olhou pensativamente pela pequena janela de madeira, já muito marcada e desgastada pelo tempo. O céu estava límpido e agradável aquela noite, se podia ver claramente as estrelas destacadas sobre o breu infinito do firmamento, tão únicas e serenas dormiam sem saber dos horrores que habitavam sobre a terra. Os olhos do velho homem percorreram toda a vastidão do céu, mas decidiram parar e vislumbrar algo muito mais belo e atraente. A lua, a dama da noite, se mostrava magnifica em todo o seu esplendor. 
    " Tão linda e brilhante...", disse ao vê-la. " É uma pena que será manchada com sangue." 
Ele caminhou lentamente até um velho baú depositado em cima de uma bancada junto a vários outros objetos. Pousou a mão sobre sua superfície e suavemente passou os dedos pelo entalhe da pequena caixa de madeira sentindo cada curva e relevo, como se cada marca e arranhão nela presente tivesse sua própria história, estas  perdidas e misturadas a um passado muito distante.
Com as duas mãos abriu-o lenta e carinhosamente, o cheiro do ar selado em seu interior logo subiu as suas narinas e o fraco brilho do conteúdo refletiu em seus olhos. Esticou os finos dedos rígidos com cuidado, até que pôde encostar na fria superfície dos objetos guardados. Três balas de prata repousavam dentro do baú, alí frias e solitárias refletiam o laranja proveniente do fogo, e se aqueciam após tanto tempo. 
O velho pegou-as e se virou novamente em direção a lareira, mas dessa vez não era o fogo que o interessava. Ao lado da simples lareira e pendurada na parede descansava uma antiga arma de caça. O homem se aproximou dela e com cuidado a retirou dos suportes que a seguravam, tal qual quem segura pela primeira vez um bebê recém nascido. Caminhou mais alguns passos até a mesa, onde depositou sua arma e munição. Logo em seguida começou a limpa-las. 
Conforme as horas passavam o fogo na lareira ficava cada vez mais fraco, a luz da lua que insidia pela janela andava pelo piso de madeira e logo alcançaria as gastas botas de couro que o homem calçava. Do inabalável silêncio da noite emergiu um som tão alto e claro que até os mortos poderiam ouvi-lo. Um uivo rasgou o ar ecoando nos ouvidos do velho. 
    " Auuuu! "     
    " É chegada a hora.", disse o velho com o pesar em sua voz.  
Levantou-se e posicionou a cadeira uns dois metros a frente da porta. Sentou-se novamente e colocou uma das balas no cano da arma engatilhando-a para o disparo. 
    "Auuuuuuuuuu!" 
Fechou os olhos e começou a recitar o que poderia ser a sua ultima oração. 
    "Auuuuuuuuuuuuuuuuuu!"
 E o silêncio tomou conta do ar, nenhum som, nenhum ruido. Tudo parecia tão quieto como estava pouco tempo atrás.
     " Vamos lá! Apareça... ", sussurrou o velho por entre os dentes cerrados. 
A calmaria momentânea foi sanada por uma forte batida na porta, as dobradiças sacudiram e poeira se soltou por entre as frestas da madeira. Logo em seguida veio a segunda batida, dessa vez mais forte que a primeira, a tranca da porta e uma das dobradiças já estavam frágeis e entortadas. O velho sabia que logo elas iriam ceder. 
     " Venha logo de uma vez seu desgraçado! " 
Mais uma forte pancada se seguiu e a porta então cedeu, grandes olhos amarelos olhavam fixamente para o velho sentado na cadeira.
      " Olá Louis! "
Com um forte rosnado a fera saltou sobre a porta caída em direção ao homem, Dentes cobertos de baba se moveram tão rápido que o velho, instintivamente, só teve tempo para puxar o gatilho. O tiro acertou o abdômen da criatura, que caiu agonizando bem ao seu lado.
Num salto o velho levantou-se e tentou recarregar a arma, porém seus dedos trêmulos e frágeis deixaram a bala cair, assim a fera atacou novamente saltando sobre seu corpo. Dessa vez ambos foram ao chão, rolando e se digladiando com toda a força que ainda tinham. O cano da arma era a unica coisa que separava os longos dentes do animal da enrugada face do velho, e consequentemente de uma morte certa.
     " É assim que vai acabar? Hãm ?", gritou para o seu oponente, mas nos olhos da fera não se refletia nenhuma gota de razão. Tentou chutar e atirar o animal pra longe de si, mas mesmo com todo o esforço não obteve sucesso. Soltou a arma com uma das mãos, segurando-a apenas com a outra. A ação desesperada fez o peso da fera cair ainda mais sobre seu corpo, deixando-o sem espaço para se mover ou lutar.            
Com a mão livre ele tateou o corpo no animal em busca de alguma forma de agarra-lo, até que encontrou o ferimento provocado pelo disparo, penetrou seus dedos na carne quente e viscosa retorcendo-os e agarrando o máximo que podia. O sangue quente escorreu por sua mão e a criatura rosnou de dor, saltando de cima do velho e cambaleando desorientada em direção ao fogo.
O velho aproveitou o momento para recarregar a arma e disparou quando o animal tentou avançar novamente. O disparo, muito mais certeiro dessa vez, acertou o peito da criatura que caiu sem forças para se levantar. Deitada no piso de madeira banhando pelo próprio sangue, a criatura apenas observava um velho caçador apanhar sua ultima bala do chão afim de abater sua presa.
     " Então é assim que acaba, não é? ", disse trêmulo enquanto engatilhava a arma. " Eu não achei que esse dia chegaria, que eu iria... Todos esse anos... foi você Louis, não eu. Essa bala é pra você!"
Os profundos olhos amarelos apenas o observavam, nenhum som, nenhum grunhido, a fera apenas o observava enquanto sua respiração se tornava cada vez mais fraca e espaçada.
O velho aproximou-se à pesados passos provocados pela sola de suas botas parando em frente ao grande lobo de pelos negros. Lagrimas escorriam pelo sua face enrugada pelo tempo e ressecada pelo frio, apenas pra se perderem em meio aos grossos fios de sua barba branca. Ergueu a arma e repousou o cano na testa do fraco animal. O lobo então puxou todo o ar que sua força permitia e lentamente começou a fechar os olhos.
    " Adeus meu velho amigo..."
O som do disparo ecoou pela noite, e o resto foi apenas silêncio.

                                                                                                 - Caio Karoba